PMs acusados de integrar grupo de extermínio são julgados por morte de suspeito de roubo em Goiânia

Os quatro militares chegaram a ser detidos na Operação Sexto Mandamento, mas respondem ao processo em liberdade. Defesa diz que morte ocorreu em confronto. Caso aconteceu em 2010.

Por Sílvio Túlio e Vitor Santana, G1 GO

11/06/2019 09h33 Atualizado há 21 horas

PMs acusados de integrar grupo de extermínio (de pé) são julgados por matar suspeito de roubo em Goiânia  — Foto: Vitor Santana/G1

PMs acusados de integrar grupo de extermínio (de pé) são julgados por matar suspeito de roubo em Goiânia — Foto: Vitor Santana/G1

Quatro policiais militares são julgados nesta terça-feira (11) acusados de matar um homem, suspeito de roubo, em 2010. Os quatro réus foram presos em 2011, durante a Operação Sexto Mandamento, apontados como membros de um grupo de extermínio, mas ficaram menos de três meses detidos e, desde então, respondem em liberdade.

De acordo com a denúncia, Murillo Alves de Macedo, 26 anos, foi executado pelos militares durante uma abordagem, quando já estava rendido. A defesa dos policiais diz que a morte ocorreu em confronto.

O júri popular é presidido pelo juiz Jesseir Coelho de Alcântara. São julgados Vitor Jorge Fernandes, de 35 anos, Cláudio Henrique Camargos, 48, Alex Sandro Souza Santos, 44, e Ricardo Rodrigues Machado, 38.

“Todos respondem por homicídio qualificado. Eles ficaram presos por três meses, aproximadamente, e foram soltos. A vítima tinha passagens por roubo, mas isso não justifica uma execução, e é por isso que eles estão sendo julgados, para saber se a ação foi legítima”, disse o juiz.

O advogado dos policiais, Thales José Jayme, disse que a morte aconteceu durante um confronto e crê que os réus serão inocentados.

“Foi uma morte em confronto. É lamentável esse julgamento e o que fizeram durante a Operação Sexto Mandamento. Não existe absolutamente nada contra esses policiais, nem na vida pessoal e nem nesse caso em específico. Acredito que os promotores não vão sustentar a acusação contra eles”, afirma Jayme.

O Ministério Público disse que vai aguardar os depoimentos para se posicionar. “O laudo mostra que as armas usadas no crime são de uso dos policiais e eles não negam que tenham feito a ação, mas não houve execução. Vamos esperar os depoimentos para nos posicionar”, disse o promotor Cassius Marcellus de Freitas Rodrigues.

Quatro PMs são réus em morte de suspeito de roubo; defesa diz que morte ocorreu em confronto — Foto: Vitor Santana/G1

Quatro PMs são réus em morte de suspeito de roubo; defesa diz que morte ocorreu em confronto — Foto: Vitor Santana/G1

Crime

O crime aconteceu no dia 26 de agosto de 2010. Segundo a denúncia, Murillo teria roubado o carro de uma policial e a arma de um outro militar que estava com ela quando os dois saíam do estacionamento de uma clínica, no Setor Bueno.
No dia seguinte ao roubo, dois policiais de folga, mas que estavam fazendo um serviço particular, localizaram o carro roubado e acionaram a central da polícia. A equipe composta pelos réus, então, foi até o local para fazer a prisão.
Os seis policiais chegaram a participar de uma audiência do caso. O Ministério Público denunciou todos eles, mas os dois que estavam de folga não serão julgados. “Eles não foram mandados a júri popular porque não ficou comprovado que eles participaram do confronto que terminou na morte de um jovem”, disse o juiz.
Segundo a denúncia, os dois militares de folga viram Murillo no carro, começaram a persegui-lo e atiraram contra ele. A equipe da Rotam, composta pelos quatro réus, foi acionada, também perseguiu o suspeito e fez novos disparos.

Ainda de acordo com o documento, mesmo com pouca luz e muita poeira, a vítima foi baleada com precisão e nenhum tiro atingiu o carro em que ela estava.


Policiais federais realizam operação contra grupo de extermínio, em 2016 — Foto: Murillo Velasco/G1

Policiais federais realizam operação contra grupo de extermínio, em 2016 — Foto: Murillo Velasco/G1

Sexto Mandamento

A primeira fase da Operação Sexto Mandamento foi deflagrada pela Polícia Federal em 15 de fevereiro de 2011. O intuito era investigar a possível existência de um grupo de extermínio na PM de Goiás. Na ocasião, 19 policiais militares foram presos depois de um ano de investigação.

Segundo as investigações, o grupo tinha como principal atividade a prática habitual de homicídios com a simulação de que os crimes haviam sido praticados em confrontos com as vítimas. Alguns dos crimes foram praticados durante o horário de serviço e com uso de carros da PM, de maneira clandestina e sem qualquer motivação, de acordo com a Polícia Federal.

O grupo foi acusado pela PF de ter cometido pelo menos 45 assassinatos nos últimos cinco anos. Entre as vítimas havia mulheres, crianças, moradores de rua e suspeitos de ligação com o crime organizado.

Em novembro de 2016, a PF realizou a segunda fase da operação. Dois policiais militares foram presos temporariamente e oito levados para depor.

O nome da operação é uma referência ao sexto mandamento da Bíblia: “Não matarás”.