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Diferença de salário médio de homens e mulheres pode chegar a quase R$ 1 mil no país, aponta IBGE

Diferença de salário médio de homens e mulheres pode chegar a quase R$ 1 mil no país, aponta IBGE

26 agosto
09:46 2017

Dados apontam que, quanto maior a escolaridade, maior é a diferença salarial entre os sexos. Neste sábado (26), é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina.

Por Clara Velasco, G1

Desigualdade de gênero no Brasil

Desigualdade de gênero no Brasil

As mulheres têm níveis de escolaridade mais altos, fazem mais tarefas domésticas desde pequenas e estão chefiando cada vez mais famílias no Brasil. Mesmo assim, elas continuam sendo desvalorizadas no ambiente de trabalho e ganhando, em média, menos que os homens. É o que mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Neste sábado (26), é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. O G1 coletou dados para mostrar a situação das mulheres brasileiras e como elas ainda enfrentam desigualdades em casa e, principalmente, no trabalho.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2015, a mais recente e completa, o rendimento médio dos brasileiros era de R$ 1.808, mas a média masculina era mais alta (R$ 2.012), e a feminina, mais baixa (R$ 1.522).

Apesar de a diferença nacional entre os sexos já ser alta (R$ 490), a situação fica ainda mais desigual a depender da região ou estado do país. A maior diferença é encontrada no Distrito Federal. Os homens ganham, em média, R$ 3.965, contra R$ 2.968 das mulheres – uma diferença de R$ 997.

Já o estado com os valores mais próximos é Roraima: R$ 1.684 para os homens e R$ 1.646 para as mulheres, uma diferença de R$ 38. Em nenhum estado, porém, o rendimento médio feminino é mais alto que o masculino.

Desigualdade salarial
Diferença entre rendimento médio de homens e mulheres chega a quase R$ 500.
Rendimento médio (R$)1.5221.5221.8081.8082.0122.012MulheresMédia nacionalHomens05001000150020002500

Homens
2.012
Fonte: IBGE

Segundo Cristiane Soares, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, questões socioeconômicas devem ser analisadas para entender as diferenças regionais. “Norte e Nordeste têm salários menores e, com isso, a desigualdade é pequena, mas continua sendo desigualdade. Em regiões com salários mais altos e em centros urbanos, que têm maior concentração de empresa, a disparidade aumenta”, diz.

Escolaridade x diferença salarial

Quanto mais altos os níveis de escolaridade dos trabalhadores, maior é a desigualdade entre os sexos. Independente do tempo de estudo, os homens sempre ganham mais, mas essa diferença começa pequena, de menos de R$ 1 por hora, para trabalhadores com até 4 anos de estudo, e cresce até atingir mais de R$ 13 por hora para pessoas com mais de 12 anos de estudo. Em cargos de gerência, por exemplo, os homens ganham, em média, R$ 5.222. Já as mulheres recebem R$ 3.575.

Escolaridade
Dados do IBGE apontam que, quanto maior a escolaridade do trabalhador, maior é a diferença salarial
sexos
Rendimento/hora (R$)HomensMulheresAté 4 anos deescolaridade5 a 8 anos9 a 11 anos12 ou mais anos01020304050

9 a 11 anos
● Mulheres: 10,47
Fonte: IBGE

Segundo Cristiane, a desigualdade de gênero é um dos fatores que explicam essa situação, mas não o único. Entender a inserção no mercado de trabalho é importante. Com pouca escolaridade, segundo a pesquisadora, os trabalhadores de ambos os sexos costumam fazer trabalhos braçais, como os de domésticas e de serventes de obra, existindo uma “afinidade” de ocupações. Pessoas com 12 anos ou mais de estudo, porém, formam um grupo mais complexo.

“A escolha das carreiras é influenciada pelos papéis. Para onde a mulher vai no ensino superior? Área de saúde, de educação, que são áreas de cuidado. Na saúde, você vê técnicas de enfermagem e enfermeiras, mas não cirurgiãs, que são postos que pagam mais. No serviço público, a mesma coisa: cargos de assessoramentos mais baixos têm mais mulheres; os superiores, mais homens.”

A juíza titular da 1ª Vara Criminal de Brasília, Ana Cláudia Mendes, observa isso no seu trabalho. Ela é concursada e, por ser servidora pública, recebe o mesmo salário que os colegas magistrados, mas diz que as mulheres são preteridas na escolha para cargos ditos “de confiança”. “No cargo de juiz, a única possibilidade de outras funções seria como assistente de tribunais superiores e, a grande maioria, é, sim, ocupada por homens.”

Ana Cláudia Mendes é juíza da 1ª Vara Criminal de Brasília (Foto: Arquivo pessoal)

Ana Cláudia Mendes é juíza da 1ª Vara Criminal de Brasília (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo a economista e pesquisadora de gênero Tânia Fontenele, coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher, os postos de poder, historicamente, são majoritariamente masculinos. “Homens escolhem homens, e fica esse círculo perverso porque muitas organizações discriminam as mulheres porque elas precisam sair para cuidar dos filhos. A culpa é do pai, é do machismo e também de questões culturais”, diz.

A advogada Júlia Ximenes, 46 anos, conhece bem as consequências de ter uma tripla jornada. Doutora em Direito e mãe de um casal de gêmeos, de 11 anos, ela também é professora e viu seu salário reduzir em 15% no momento em que precisou deixar o cargo de direção em uma universidade para “conseguir dar conta” da intensa rotina em casa.

Mesmo com a participação do marido nos afazeres domésticos, ela precisou abrir mão de um cargo e salário mais altos para poder ter mais tempo disponível para a família e os filhos. “Tinha sempre que conciliar uma festinha de Dia das Mães com uma demanda da instituição e rotina acadêmica, além de dar colo, fazer lanches à noite, um bolo ou feijão.”

Advogada Júlia Ximenes em viagem com os filhos gêmeos. (Foto: Arquivo pessoal)

Advogada Júlia Ximenes em viagem com os filhos gêmeos. (Foto: Arquivo pessoal)

Além de ganhar menos, as mulheres ainda sofrem mais com o desemprego. A pesquisa mostra uma taxa de desocupação masculina de 7,7% e feminina de 11,6%. Segundo Cristiane Soares, as mulheres têm inserção de trabalho inferior aos homens, pois sempre foram ligadas a cuidados da casa e dos filhos. Quando o mercado está aquecido, ele busca essas mulheres como uma mão-de-obra a mais, mas, quando há uma crise, o impacto é maior para elas.

“A própria condição dela, que não conta com um serviço do estado para deixar seu filho e que, com isso, não consegue se qualificar e buscar novos trabalhos, a afeta muito. A inserção no mercado depende de um aparato social que permita a essa mulher chegar ao trabalho, a trabalhar.”

Tarefas de casa

De fato, os homens trabalham mais no trabalho principal que as mulheres – uma média de quase seis horas a mais por semana. Mas, na contrapartida, as mulheres gastam 10,5 horas a mais que os homens em trabalhos domésticos (lavando pratos, arrumando a casa, cuidando dos filhos, entre outros afazeres). Por conta disso, a jornada total feminina por semana fica mais alta que a masculina, geralmente.

Jornada semanal
Veja a média das horas trabalhadas por semana dos brasileiros
40,840,834,934,9101020,520,5Trabalho principal – HomensTrabalho principal – MulheresTrabalho doméstico – HomensTrabalho doméstico – Mulheres051015202530354045

Trabalho principal – Homens
Horas semanais 40,8
Fonte: IBGE

Entretanto, segundo a especialista Tânia Fontenele, o trabalho doméstico muitas vezes não é considerado trabalho. “A mulher acorda às 4h e dorme às 23h, mas [as pessoas acham que ] ela não fez nada. Elas ficam sobrecarregadas”, diz.

E essa ideia de que a cultura de cuidados é uma “área feminina” começa desde cedo. A cada 10 meninas de 10 a 14 anos, 7 cuidam de tarefas domésticas. Já entre os meninos, são apenas 4.

“Poderia-se imaginar que, com crianças, tem a questão de ensinar a ajudar em casa, de ensinar a lavar roupa, prato. Mas os percentuais entre os sexos não são parecidos. Ou seja, desde crianças, aprendem os papéis de homens e mulheres e que cuidar da casa é atribuição das mulheres”, diz Cristiane Soares.

Alta escolaridade

Nem tudo, porém, é má notícia para as mulheres. Entre 2000 e 2010, a frequência escolar feminina no ensino médio aumentou 9,8% em relação à masculina. A Pnad de 2015 também mostra ainda que o nível de escolaridade das mulheres é melhor, com 8,1 anos de estudo, contra 7,7 dos homens. Além disso, 15% das mulheres têm superior completo, contra 11,9% dos homens.

Outro fator que aponta o avanço feminino, segundo Cristiane, é o aumento de mulheres que são consideradas referências na família. O IBGE considera como pessoa de referência quem é responsável pela unidade domiciliar (ou pela família) ou assim considerada pelos outros membros. Os homens ainda são maioria (59,5%), mas o percentual de mulheres chefes de família saltou de 30,6% para 40,5% em 10 anos.

“A gente está avançando, mas como? A desigualdade de gênero está no contexto de desigualdade social, então quando falamos de buscar desenvolvimento social, temos que analisar as questões de gênero e os papéis culturais definidos socialmente”, diz Soares.

“Por que a mulher não pode estar no canteiro de obra, ser engenheira? Por que o homem não pode estar na escola, ensinando crianças pequenas? O que fazemos para isso mudar? Fica aí a questão. Tem que bater na mesma tecla.”

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