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Após sessão ser adiada, bispo e padres acusados de desviar R$ 2 milhões em dízimos devem passar pela 1ª audiência em Formosa

Após sessão ser adiada, bispo e padres acusados de desviar R$ 2 milhões em dízimos devem passar pela 1ª audiência em Formosa

10 setembro
09:11 2018

Investigação do Ministério Público apontou que grupo usou dinheiro para comprar fazenda de gado, carros de luxo e casa lotérica. Nove foram presos em 19 de março na Operação Caifás.

Bispo Dom José Ronaldo chega ao Fórum acompanhado do juiz eclesiástico Tiago Wenceslau, em Formosa, Goiás (Foto: Vitor Santana/G1)

Após a Justiça adiar a primeira audiência de instrução, o bispo Dom José Ronaldo Ribeiro e outros cinco padres acusados de desviar mais de R$ 2 milhões em dízimos da Diocese de Formosa, no Entorno do Distrito Federal, devem ser ouvidos, nesta segunda-feira (10). A sessão foi remarcada para esta manhã depois que o Ministério Público Estadual de Goiás (MP-GO) apresentou novos documentos ao processo, e a defesa, alegando que não teve acesso aos papéis previamente, solicitou o adiamento.

O G1 tentou contato às 6h30 desta segunda-feira, por telefone, com a defesa dos religiosos, mas as ligações não foram atendidas até a última atualização desta reportagem.

A audiência está prevista para começar às 8h30, no Fórum de Formosa. A sessão deve ser presidida pelo juiz Fernando Oliveira Samuel, da 2ª Vara Criminal. O magistrado havia justificado em um documento o adiamento da sessão, que ocorreria no último dia 9 de agosto. Ele afirmou que a nova data não traria nenhum prejuízo ao processo.

“Os defensores manifestaram em conjunto pela impossibilidade de prosseguir com a produção de prova testemunhal sem tomar conhecimento e analisar tais provas”, afirmou na época.

O promotor Douglas Chegury havia dito que acreditava que o julgamento ainda não deveria ocorrer todo no mesmo dia, por conta da quantidade de testemunhas. Foram arroladas 32 testemunhas, sendo quatro de acusação e as demais de defesa.

“Podemos considerar que essa audiência é o inicio do julgamento, mas dificilmente dará tempo de ouvir todas as testemunhas hoje. A promotoria listou três padres e um leigo [pessoa da comunidade que ajuda durante as celebrações] porque são pessoas de confiança da igreja e trouxeram muitas informações ao longo das investigações”, informou o promotor no último dia 9 de agosto.

“Os defensores manifestaram em conjunto pela impossibilidade de prosseguir com a produção de prova testemunhal sem tomar conhecimento e analisar tais provas”, afirmou na época.

O promotor Douglas Chegury havia dito que acreditava que o julgamento ainda não deveria ocorrer todo no mesmo dia, por conta da quantidade de testemunhas. Foram arroladas 32 testemunhas, sendo quatro de acusação e as demais de defesa.

“Podemos considerar que essa audiência é o inicio do julgamento, mas dificilmente dará tempo de ouvir todas as testemunhas hoje. A promotoria listou três padres e um leigo [pessoa da comunidade que ajuda durante as celebrações] porque são pessoas de confiança da igreja e trouxeram muitas informações ao longo das investigações”, informou o promotor no último dia 9 de agosto.

Ao todo, 11 pessoas foram denunciadas. Elas respondem por crimes como apropriação indébita, falsidade ideológica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Depois que todas as testemunhas forem ouvidas, a defesa e a acusação terão um prazo de cinco dias para fazerem suas manifestações finais. Somente depois desse prazo que o juiz dará a sentença.

Fachada da Cúria Diocesana de Formosa (Foto: TV Anhanguera/Reprodução) Fachada da Cúria Diocesana de Formosa (Foto: TV Anhanguera/Reprodução)

Fachada da Cúria Diocesana de Formosa (Foto: TV Anhanguera/Reprodução)

Investigação

Investigações do Ministério Público feitas a partir de denúncias de fiéis apontaram que acusados – o grupo tem ainda dois empresários e três funcionários da Cúria – usaram o dinheiro para comprar uma fazenda de gado, uma casa lotérica e carros de luxo. O bispo e os padres sempre negaram a prática de crimes.

A apuração culminou com a Operação Caifás, em 19 de março. Nove pessoas foram presas na ocasião:

  1. José Ronaldo Ribeiro, bispo de Formosa
  2. Monsenhor Epitácio Cardozo Pereira, vigário-geral da Diocese de Formosa
  3. Padre Moacyr Santana, pároco da Catedral Nossa Senhora Imaculada Conceição, Formosa
  4. Padre Mário Vieira de Brito, pároco da Paróquia São José Operário, Formosa
  5. Padre Tiago Wenceslau, juiz eclesiástico
  6. Padre Waldoson José de Melo, pároco da Paróquia Sagrada Família, Posse (GO)
  7. Guilherme Frederico Magalhães, secretário da Cúria de Formosa
  8. Antônio Rubens Ferreira, empresário suspeito de ser laranja da quadrilha
  9. Pedro Henrique Costa Augusto, empresário, suspeito de ser laranja da quadrilha

O grupo conseguiu habeas corpus quase um mês depois, e nenhum dos padres voltou a exercer as funções anteriores. Atualmente, a diocese de Formosa tem um “interventor”, nomeado pelo Papa Francisco: o arcebispo de Uberaba (MG), Dom Paulo Mendes Peixoto. Ele não se pronunciou sobre o caso. Sua assessoria já havia afirmado que ele não iria acompanhar a audiência

Juiz eclesiástico Tiago Wenceslau (à direita), bispo Dom José Ronaldo (no meio) e o promotor do Ministério Público de Goiás Douglas Chegury (à esquerda), no momento em que a prisão dos clérigos foi comunicada (Foto: Reprodução)

Juiz eclesiástico Tiago Wenceslau (à direita), bispo Dom José Ronaldo (no meio) e o promotor do Ministério Público de Goiás Douglas Chegury (à esquerda), no momento em que a prisão dos clérigos foi comunicada (Foto: Reprodução)

Período na prisão

Os presos na Operação Caifás ocuparam celas em uma área separada do novo presídio de Formosa. De acordo coma Diretoria-Geral de Administração Penitenciária (DGAP), o isolamento ocorreu para garantir a integridade física deles.

O grupo tinha direito a banho de sol de duas horas por dia e tomava banho em chuveiro sem eletricidade. Os clérigos, empresários e funcionário da Cúria foram soltos quase um mês depois. Eles foram recebidos com festa e cânticos religiosos.

Bispo e padres suspeitos de desviar dízimo deixam a cadeia e são recebidos com festa em Formosa, Goiás (Foto: TV Anhanguera/Reprodução) Bispo e padres suspeitos de desviar dízimo deixam a cadeia e são recebidos com festa em Formosa, Goiás (Foto: TV Anhanguera/Reprodução)

Bispo e padres suspeitos de desviar dízimo deixam a cadeia e são recebidos com festa em Formosa, Goiás (Foto: TV Anhanguera/Reprodução)

Denúncia de fiéis

Fiéis procuraram o Ministério Público no final de 2017 para informar que as despesas da casa episcopal de Formosa, onde o bispo mora, passaram de R$ 5 mil para R$ 35 mil desde a chegada de Dom José Ronaldo. Ele já estava à frente da Diocese havia três anos.

O bispo enfrentou esse mesmo tipo de problema e resistência lá na Diocese de Janaúba (MG). Então ele veio transferido de lá para cá e aqui ele implementou um esquema semelhante ao que ele operava lá”, disse o promotor responsável pelo caso, Douglas Chegury, na época da operação.

Aumento nas taxas de casamento

Fiéis também afirmaram que o bispo Dom José Ronaldo determinou aumento de até 400% nas taxas de casamento quando assumiu a administração, em 2014. As mesmas informações chegaram ao MP por meio do depoimento de um dos padres que denunciou o esquema, segundo o promotor.

Na época em que a Operação Caifás foi deflagrada, os noivos precisam pagar R$ 50 caso contratem fotógrafo, R$ 150 caso contratem filmagem e R$ 150 caso contratem decoração nas 33 igrejas administradas pela Diocese de Formosa. Além disso, devem gastar mais R$ 280 para cobrir despesas com documentação.

Antes da chegada do bispo, porém, os valores eram menores: R$ 30 para os serviços contratados e executados em uma das igrejas e R$ 100 para as despesas com documentação, afirmam fiéis. Os aumentos fizeram com que muitos casais decidissem adiar a união.

Papa Francisco chegou a ser arrolado como testemunha do processo (Foto: Gregorio Borgia/AP) Papa Francisco chegou a ser arrolado como testemunha do processo (Foto: Gregorio Borgia/AP)

Papa Francisco chegou a ser arrolado como testemunha do processo (Foto: Gregorio Borgia/AP)

Papa como testemunha

Dentre as 31 testemunhas arroladas pela defesa do bispo Dom José Ronaldo no processo estava o Papa Francisco. Ele deveria ser ouvido por carta rogatória. O juiz Fernando Oliveira Samuel negou o pedido, alegando que a defesa “não trouxe qualquer justificativa” para ouvir o pontífice.

Na época, o advogado Lucas Rivas disse que a escolha era “técnica”. Também haviam sido listados pela defesa do bispo o núncio apostólico no Brasil, Giovanni D’Aniello, e o cardeal Dom João Braz de Aviz.

Bloqueio de bens

O juiz Fernando Oliveira Samuel determinou em 27 de março o bloqueio de bens dos seis clérigos, dois empresários e do secretário da Cúria. O limite foi de até R$ 1 milhão por cada. Também foi autorizada a quebra do sigilo bancário e fiscal dos acusados.

No processo do MP constam documentos que apontam que alguns dos religiosos acusados de desvios de dízimos reconheceram a ausência de R$ 910 mil nos caixas das igrejas. O órgão acredita que o padre Waldson José de Melo, de Posse, o monsenhor Epitácio Cardozo Pereira e o bispo Dom José Ronaldo embolsavam os valores declarados como “desaparecidos”.

Veja outras notícias da região no G1 Goiás.

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