À espera de prova para validar diploma, médico cubano trabalha como motorista de app em Brasília

Yurian Pérez, que se mudou para encontrar namorada, não atendeu no programa Mais Médicos. Revalida 2018 não foi realizado devido a demora na edição 2017.

Por Michele Mendes, TV Globo

Médico cubano Yurian Pérez com certificados de formação e de especialização — Foto: Michele Mendes/TV Globo

Médico cubano Yurian Pérez com certificados de formação e de especialização — Foto: Michele Mendes/TV Globo

O médico cubano Yurian Enrique Ramayo Pérez, de 36 anos, soma 12 anos de experiência em emergência médica, mas não pode exercer a profissão no Brasil porque o exame do governo federal para validar diplomas emitidos no exterior, o Revalida, não foi realizado em 2018.

Yurian veio para o Brasil em 11 de outubro de 2017, mas, ao contrário de milhares de médicos cubanos, não chegou a atender nenhum paciente dentro do programa Mais Médicos. O motivo da viagem para Brasília foi outro: encontrar, em Brasília, a namorada brasileira. Na capital, eles se casaram meses depois.

“Procurei emprego em quase todos os hospitais, para tentar uma vaga administrativa, mas ninguém me chamou. Fiz a prova para a emergência do Hospital de Base [do DF] e, entre 200 médicos, passei em 12º lugar. Fiquei muito feliz, mas me informaram que, sem o Revalida, não posso trabalhar”, relata.

Atualmente, Yurian dedica de oito a dez horas por dia trabalhando como motorista de aplicativo. Com o salário que ganha, ajuda a esposa nas despesas da casa e paga a prestação do carro que precisou comprar para trabalhar. “Estou trabalhando todos os dias, no fim de semana também. Preciso pagar o financiamento e o seguro, dá mais ou menos R$ 2,5 mil por mês.”

“Em Cuba, eu ganhava 60 dólares por mês, tinha que economizar. Mas lá quase tudo é de graça, com esse dinheiro dá para viver.”

Médico cubano Yurian Pérez com as provas que usa para estudar — Foto: Michele Mendes/TV Globo Médico cubano Yurian Pérez com as provas que usa para estudar — Foto: Michele Mendes/TV Globo

Médico cubano Yurian Pérez com as provas que usa para estudar — Foto: Michele Mendes/TV Globo

Ele se formou em 2006 na Universidad Médica de Las Tunas, onde fez especialização como médico da família e intensivista. O último local em que trabalhou como médico foi no Hospital Cirúrgico Dr. Ernesto Guevara, também em Las Tunas, cidade onde morava.

Sem previsão

Em nota enviada ao G1, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) disse que não organizou o Revalida em 2018 porque a segunda etapa do exame em 2017 só foi aplicada em 17 e 18 de novembro de 2018, sendo necessária a conclusão desse processo para marcar uma nova prova.

“O Inep se pronunciar dizendo que não tem previsão nenhuma [para a próxima prova] é muito ruim”, lamenta Yurian, que diz ter passado seis meses só estudando para a prova do Hospital de Base.

Para ele, dirigir nas ruas da capital foi positivo porque, assim, ele conseguiu praticar a língua portuguesa. Mas esse pequeno conforto não afasta a saudade de atender em um hospital. “Eu quero trabalhar onde realmente precisem de mim”, afirma.

Médico cubano Yurian Pérez em imagem de arquivo em hospital de Las Tunas — Foto: Arquivo pessoal
Médico cubano Yurian Pérez em imagem de arquivo em hospital de Las Tunas — Foto: Arquivo pessoal

“O que mais tenho saudade é da adrenalina de salvar vidas, esse trabalho na emergência é muito gratificante. Eu tentei trabalhar como voluntário na fronteira de Roraima com a Venezuela, mas também não consegui porque ainda não tenho registro de médico no Brasil”, conta.

“Eu ainda não estou 100% feliz aqui, eu quero a minha vida profissional aqui também.”

A prova

O Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira (Revalida) é um teste obrigatório para que brasileiros e estrangeiros que se formaram em medicina fora do Brasil possam exercer a profissão de médicos no país.

Segundo o Inep, o custo com a prova de habilidades clínicas na edição 2016 foi de R$ 18 milhões para cerca de 2,3 mil inscritos – quase R$ 7,6 mil por candidato. A inscrição custava R$ 150 na primeira fase e R$ 300 na segunda etapa. De acordo com o instituto, há “um grande desequilíbrio monetário” para a operacionalização do certame.

As nacionalidades que mais buscam a validação do diploma de medicina no país são brasileiros, bolivianos, peruanos, colombianos, argentinos e paraguaios.

Na semana passada, o ministro da Saúde, Gilberto Occhi, defendeu na audiência pública da Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso Nacional que o exame seja mais “rápido, permanente e constante”: “Queremos estabelecer uma regra que possa tornar mais ágil o processo de certificação dos profissionais”.

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